Em terras desoladas pelo apocalipse, no terceiro ano da era Shizong, o mundo mergulhou em caos; o povo, privado de meios para sobreviver, vivia em incessante sofrimento. O poder do império central ruíra, e por toda parte senhores da guerra retalhavam o território, enquanto seitas e clãs proclamavam independência. Seitas demoníacas e facções heréticas ocultavam-se nas sombras, fomentando o desassossego; bandos rivais se digladiavam incessantemente, mergulhando tudo em desordem absoluta. Calamidades naturais se sucediam sem fim: secas devastadoras, invernos impiedosos, chuvas torrenciais, pragas de insetos—o povo, exaurido, debatia-se entre a esperança e o clamor por redenção. No turbilhão dessa anarquia, diversas seitas e escolas se erguiam, disputando recursos e territórios, erigindo domínios próprios. Ambiciosos intentavam unificar o mundo sob um novo império, enquanto almas nobres buscavam salvar as multidões e reconstruir lares devastados. Entre músculos, artes marciais e leis imortais, mestres que atingiam o ápice do dao marcial conquistavam, nas lendas, títulos comparáveis aos de deuses e budas. Wei He, portador da Pérola do Rompimento—um artefato capaz de transpor limites e elevar o cultivador a novos patamares—atravessa este mundo tumultuado, tecendo passo a passo a lenda que lhe caberá por direito próprio.
Ao romper do dia, o céu se tingia de um tênue alvorecer, límpido e sem nuvens a perder de vista.
Grande Yuan, Província de Yun, Cidade de Feiye.
Quiquiriqui!
Uma ave de penas alvas e bico negro rompeu as nuvens batendo as asas, mergulhando velozmente rumo ao solo.
Transpôs as antigas e maciças muralhas da cidade, deslizou sobre torres e ameias. Reduziu o ímpeto e, leve como o vento, pousou no topo da mais alta torre rubra, onde, entre o cuidado de suas plumas, fitava o mundo abaixo.
No interior da cidade, avultavam edifícios cinzentos, cada qual com feições singulares.
Aqui e ali despontavam casas e pavilhões de amarelo pálido, e grandes pátios de beirais envergados se multiplicavam ao acaso.
Bem ao centro, erguia-se uma vasta praça quadrangular.
O chão do amplo terreiro era todo lajeado de pedras largas, cada qual com mais de um metro, e ostentava desenhos de bestas exóticas, gravados com nitidez singular.
Era ali que, em dias comuns, se dava o mercado da cidade, espaço amplo e livre para as feiras.
Agora, contudo, uma multidão compacta apinhava-se para assistir e ouvir.
No centro da praça, sobre uma tosca plataforma de madeira, um ancião de longas barbas brancas, trajando vestes alvas e empunhando um espanador de seda, pregava em voz alta.
“Aquele que busca o Saber, recite dez vezes, e terá ao seu lado os Cinco Imperadores, curvar-se-ão perante si os Três Reinos...”
“Vós, estudiosos, cuja impureza ainda não se dissipou, cujo corpo ainda não se fez verdadeiro...”
“Olhem, ali vem ele!”